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Tudo de bom…

Quando acordei senti no ar aquele clima diferente. Algo me dizia que o mar tinha subido e as condições para o surf eram as melhores possíveis. Instintivamente o metabolismo e a sensibilidade do meu corpo já passavam a responder de forma diferente àquele estímulo natural.

Saí correndo pelas escadas do prédio e depois de duas esquinas deparei com o visual do mar.  Eu não estava enganado. A água estava super verde, o sol brilhava forte e as ondas estavam lá. Eram séries de 6 pés quebrando perfeitas na bancada de pedras. Os tubos rodavam sozinhos e mesmo sem surfista algum no pico fiquei paralisado vendo aquela maravilha da natureza. Declarei feriado para mim mesmo pois sabia que nada faria com que eu perdesse aquele dia.

Bocadabarra 8001 Tudo de bom...

Vamos lá!

Voltei para casa correndo, subi as escadas voando e quase desço direto pela janela. Fui correndo pela rua com o pranchão em baixo do braço, como se o mundo fosse acabar naquele instante. Depois de alguns floaters subindo e descendo os meios fios, alguns cut backs desviando das pessoas nas calçadas e algumas interferências ultrapassando os carros no engarrafamento, consegui entrar no mar.

Parecia um sonho. Eu remava pelo canal e gritava sozinho diante de tanta energia. A empolgação e uma estranha sensação de alegria, prazer e muita excitação se misturavam com um vazio assustadoramente sobrenatural. É algo realmente inexplicável o que sentimos quando nos deparamos com tanta harmonia. E olha que eu não havia pegado onda alguma até aquele momento.

Quando cheguei ao pico, estava focado para pegar as melhores e a primeira teria que ser um rainha, afinal de contas estava sozinho no mar. Passaram algumas intermediárias e eu não parava de imaginar como seria a primeira do dia. Estava um pouco trêmulo, um pouco arrepiado e muito ansioso pela série que anunciava sua chegada com o balanço do horizonte. Era a série das rainhas que vinha em minha direção e deu para perceber que a segunda era a maior e a mais bela.

Remei com vontade e passei a primeira. Quando comecei a remar para descer na segunda, tudo parecia muito estranho. A adrenalina havia se misturado com uma dose excessiva de emoção e de repente tomei consciência da realidade: a onda cavou demais e eu estava pronto para tentar um drop super difícil e atrasado. Embiquei radical. A onda rodou por cima, tomei o maior caldo e fui empurrado para a superfície completamente decepcionado.

Logo fiquei esperto e puxei a prancha pela cordinha para remar em direção ao pico e tentar melhor sorte numa próxima onda. Quando deitei senti algo estranho e na primeira braçada os pedaços se separaram. A “bóia” quebrou e eu simplesmente não acreditava. Toda aquela emoção inicial começou a se transformar numa grande depressão. Fiquei putão, gritei, xinguei e depois chorei. Não tinha mais tesão. Saí remando na metade da prancha, baixei a cabeça e comecei a andar de volta para casa sem ter desfrutado uma onda sequer.

Quando cheguei no meu quarto e me deparei com as fotos de surf, as lembranças das viagens, os troféus ganhos em competições, minhas roupas e meu estilo de vida, percebi que jamais poderia sentir algo negativo pelo surf. Nunca experimentei sensações tão fortes e marcantes em minha vida. Tinha só que agradecer pelo privilégio de ter merecido a oportunidade de ser um surfista, que mesmo os momentos de stress no surf deveriam ser aproveitados para a evolução da minha personalidade e a melhora do meu equilíbrio emocional. A raiva pela frustração do surf naquela manhã estava se transformando em pura gratidão.

Voltei então à praia para ver as ondas quebrando. Outros surfistas já curtiam aquela manhã tão mágica e por incrível que pareça me senti super feliz por testemunhar a alegria deles após cada drop, cada cavada, cada tubo, ou mesmo por estarem apenas sentados em suas pranchas esperando as ondas. Eu entendia perfeitamente o sentimento de prazer que invadia suas almas.

corais 800 Tudo de bom...

Olhar também faz bem

Fiquei reflexivo pensando como seria bom se todas as pessoas pudessem sentir o que nós sentimos durante estas experiências. Queria que as pessoas entendessem porque somos tão fissurados pelo surf a ponto de percebermos em pequenos sinais da natureza uma grandeza emocional de dimensões inexplicáveis.

Aquele dia ficou marcado em minha vida. Mais uma vez o surf me presenteava com uma experiência muito forte. Mais uma vez o surf me surpreendia com sua capacidade impar de transformar momentos depressivos, instantaneamente, em momentos de plena satisfação.  O surf é assim, tudo de bom…

Bernardo Mussi – Blogueiro colaborador e patrocinador da parceria EasyDrop com a “Punho Forte

3 Responses to “Tudo de bom…”

  1. Fabio Tihara says:

    Caro Mussi,

    Não conhecia o trabalho do seu blog, ele me foi encaminhado por um grande amigo chamado Augusto que é filho de Tuca Carvalho(que voce deve conhecer evidente) e fiquei muito feliz em ler suas palavras…estou visitando minha mae no interior de SP e pela distancia e saudade do mar seu texto caiu como uma luva e mudou meu dia…tudo de bom para voce e obrigado.

  2. André (filho de Tuca) says:

    “Tio Bernardo”
    Lendo o texto já visualizo vc entrando na onda, sem ao menos dar uma remada,só empurrando o fundo da prancha na água p dar uma forcinha e pronto, lá estava Bonga em HARMONIA com a onda…Agradeço cada dia surfado ao seu lado,momentos mágicos, as vezes até dividindo a mesma prancha(tenho uma foto nossa assim) nunca vou me esquecer!!! Saúde e Luz

  3. Amigo Fabio e querido sobrinho André! Valeu pelas mensagens e fico muito feliz por saber que o surf toca o coração de vcs de uma maneira muito positiva. Vamos em frente sempre com a humildade e a solidariedade no bico de nossas pranchas. Saúde e paz, Bernardo Mussi.

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